Maria e Abraão em Lucas 
José Haical Haddad


  


MARIA E ABRAÃO 

De imediato, observa-se que o Prólogo do Evangelho de São Lucas, está repleto e mesclado de citações do Antigo Testamento, daqueles trechos que se foram “cumprindo” em Jesus Cristo. São Lucas tece uma urdidura completamente nova com as nuanças proféticas antigas, e muitas vezes, com termos distintos, evidencia com clareza a realização do que fora anunciado. É o caso por exemplo do “crescendo” havido entre os termos da Aliança com Abraão (“tua recompensa será muito grande”) com o “cumprimento dela”, a começar com Zacarias (“a tua súplica foi ouvida”) e explodindo com Maria (“encontraste Graça junto de Deus”). Este “crescendo” observado vai se repetir em outras partes do contexto das Anunciações, quando se examinam as três concomitantemente: 

A ABRAÃO:  A ZACARIAS:  A MARIA: 
“Depois desses acontecimentos, numa visão...



“Apareceu-lhe, então, o Anjo do Senhor, de pé, à direita do Altar do Incenso.Ao vê-lo, Za-carias perturbou-se e o temor apo-derou-se dele.   “.No sexto mês, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus (...) a uma virgem desposa-da com um varão chamado José, da Casa de Davi; e o nome da virgem será Maria. Entrando...
a palavra de Iahweh foi dirigida a Abrão, ...:


Disse-lhe, porém, o Anjo:



...onde ela estava, disse-lhe: ‘Alegra-te, cheia de Graça, o Senhor está contigo!’ Ela ficou intrigada com esta palavra e pôs-se a pensar qual seria o significa-do da saudação. O Anjo, porém,...  
Não temas, Abraão! Eu sou o teu escudo, tua recompensa será muito grande.’ Abrão respondeu: ‘Meu Senhor Iahweh, que me darás? Continuo sem filho, eis que não me deste descendência e um dos servos de minha casa será meu herdeiro.’ Então foi-lhe dirigida esta palavra de Iahweh: ‘Não era esse o teu herdeiro, mas alguém saído de teu sangue.” Ele o con-duziu para fora e disse: ‘Ergue os olhos para o céu e conta as estre-las, se puderes’, e acrescentou: ‘Assim será a tua posteridade’ (Gn 15,1-5).  Não temas, Zacarias, porque a tua súplica foi ouvida,...














...acrescentou: ‘Não temas, Ma-ria! Encontraste Graça junto de Deus







. 







Não, mas tua mulher Sara te dará um filho: tu o chamarás Isaac;..
 ...e Isabel, tua mulher, vai te dar um filho, ao qual porás o nome de João. Terás alegria e regozijo, e...    Eis que conceberás e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus.
...estabelecerei minha ALIANÇA com ele, como ALIANÇA PERPÉTUA, ...  ...muitos se alegrarão com o seu nascimento.    
...“engrandecerei teu nome”(12,2).





Pois ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho, nem bebida embriagante; ficará pleno do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe, e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, SEU...   Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo,...





...para ser o SEU DEUS e o de sua descendência depois dele” (Gn 17,19).


DEUS. Ele  caminhará à sua frente, com o espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à prudência dos justos,...    ...e o SENHOR DEUS lhe dará o trono de Davi, seu pai;..




. 
Eu farei de ti um grande  ...para preparar ao Senhor um...      
POVO, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome, sê tu uma bênção! (...) Em ti serão benditas todas as nações” (Gn 12,2-3).   ...POVO bem disposto.’


ele reinará na Casa de Jacó para  sempre, e o seu reinado não terá fim.’ 
Abrão respondeu: ‘Meu Senhor Iahweh, como saberei que hei de possuí-la?’ Iahweh disse a Abrão: (...) Zacarias perguntou ao Anjo: ‘De que modo saberei disso?’ Pois eu sou velho e minha esposa é de idade avançada.’ Respondeu-lhe o...   Maria, porém, disse ao Anjo: ‘Como vai ser isso, se eu não conheço homem algum?’ O Anjo respondeu: ‘O Espírito Santo virá ...
Naquele dia Iahweh estabeleceu uma ALIANÇA com Abrão nestes termos: ‘À tua posteridade darei esta terra...” (Gn 15,8-20).
...Anjo: ‘Eu sou Gabriel; assisto diante de Deus e fui enviado para anunciar-te esta boa nova.

sobre ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra: por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice, e este é o sexto mês para aquela que chamavam  de estéril. 
Acaso existe algo de tão im-possível para Iahweh? Na mes-ma estação, no próximo ano, voltarei a ti, e Sara terá um filho”  (Gn 18,14).  Eis que ficarás mudo e sem falar até o dia em que isso acontecer, ...

Para Deus, com efeito, nada é impossível.’Disse,então, Maria: ‘Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!
Abrão creu em Iahweh, e lhe foi tido em conta de justiça” (Gn 15, 6). “Quando terminou de falar, Deus retirou-se de junto de Abraão” (Gn 17,22).  ...porquanto não creste em minhas palavras, que se cumprirão no tempo oportuno” (Lc 1,11-20).
“Feliz a que creu, pois (...)será cumprido!”(Lc 1,45 “Isabel”).

“E o Anjo retirou-se” (Lc 1,26-38).

Pode-se facilmente constatar a presença sistemática, não casual, de vários elementos racional-mente presentes nas três Anunciações, dispostas acima em colunas. Tomando-se sempre por funda-mentais tanto a Promessa como a Aliança de Abraão, o “cumprimento” delas é facilmente discernível nelas, a partir das dimensões da primeira. Por ela Iahweh faria de Abraão: “...um grande povo, ‘eu te abençoarei’,  ‘engrandecerei’ teu nome; sê tu uma bênção! (...) por ti  serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,1-3). 

Para a concretização dessa Promessa e a partir dela Deus conclui a Aliança com Abrão e muda-lhe o nome para Abraão. Desenrola-se a partir de então a HISTÓRIA DA SALVAÇÃO, prosseguindo por Isaac, Jacó e os doze filhos deste, cujos vários episódios são de certa maneira introduzidos nas Anunciações, tornando-as harmônicas e idênticas, além de vinculadas umas às outras indestacavelmente. Por primeiro, é de se mencionar outro “Não Temas”, ao neto de Abraão, Jacó, dando prosseguimento à Promessa a Abraão (“na tua posteridade”): 

“Jacó! Jacó! (...) NÃO TEMAS descer ao Egito, porque lá eu farei de ti uma grande nação (...) e José te fechará os olhos” (Gn 46, 3-4) 

No Egito os israelitas, descendentes das doze tribos que se formaram dos filhos de Jacó,  per-maneceram fiéis a Iahweh, não se deixando influenciar pelos seus deuses, tornando-se lá, por isso, conhecidos como POVO (Ex 1,9.20), em virtude de se organizarem separadamente, adorando outro deus e com uma espécie de conselho de “anciãos” (Ex 3, 16.18), tal como fora já anunciado: 

“Iahweh disse a Abrão: ‘Sabe, com certeza, que teus descendentes serão estrangeiros num país que não será o deles  (...) serão oprimidos (...) e sairão com grandes bens” (Gn 15, 13-14) 

Já um povo, libertado, sai do Egito em busca da Terra Prometida a Abraão (Gn 12,7), conduzido por Moisés e Aarão, “conquistando-a” finalmente, sob Josué, após quarenta anos de peregrinação. Durante essa peregrinação pelo deserto, o Povo de Deus toma consciência de si próprio e habilita-se a se conduzir, recebendo o que se denominou Decálogo, uma organização profundamente religiosa e foi-lhe instituído um sacerdócio, bem como algumas instituições e solenidades, além de sacrifícios diversos. Instituiu-se a Páscoa como uma comemoração da saída do Egito. Iahweh Deus promete a Moisés “um Profeta como ‘ele’” (Dt 18,15) para substituí-lo, promessa que se vinculou à Aliança e retroagiu até Abraão e alcança no futuro o Messianismo inaugurado com Davi (cfr. At 3,23-25 / 7,37 / 2,25-36). 

Na Terra Prometida, porém, encontraram dificuldades de toda a espécie, vivendo em completa desorientação, até mesmo religiosa, algumas vezes dominados e outras misturados com os pagãos até que Samuel, Sacerdote e Profeta (1Sm 3,1-19), o último dos Juizes, consegue unificá-los e instalar a monarquia com a unção do Rei Saul, da tribo de Benjamim. Após a morte deste, o substitui Davi, da tribo de Judá, ao qual é feita a Promessa Messiânica (2Sm 7,5-17), de se assentar para sempre um seu descendente no trono de Judá, na qualidade de Messias, que significa “ungido”, em grego CRISTO, cumprindo-se então a antiga Bênção de Jacó (Gn 49,10). Este “ungido” prometido é Jesus, o CRISTO (= “o Ungido” = “o Messias”). CRISTO não é um “sobrenome” de Jesus 

Uma das mais importantes características dos Evangelhos, no que não se diferenciam de toda a Escritura, é que, ao contrário do que acontece com os outras obras humanas, foram escritos para quem já conhecia os fatos, até mesmo nos mínimos detalhes. Por isso são para nós como que resumos, pela sua brevidade e concisão, não se lhes constando todos os detalhes da História da Salvação, que deveriam ser do conhecimento ou da cultura geral de então, distanciando-se por demais de tudo aquilo que possamos distinguir de imediato. Isso aconteceu também nas Anunciações a Zacarias e a Maria, qual seja, somente foram abordados ângulos básicos e centrais de toda a História da Salvação, que ainda estava sendo sedimentada, enquanto se realizavam ou se “cumpriam” as várias “figuras e anúncios”. 

Começando por Abraão, que “será uma bênção” e “engrandecerei o seu nome”, passando por Isaac, com quem “estabelecerei minha Aliança, como Aliança Perpétua, para ser o seu Deus e o de sua descendência depois dele”, vislumbra-se todo o passado até João Batista. Com este “terás alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento, pois ele será grande diante do Senhor, ‘não beberá vinho, nem bebida embriagante, ficará pleno do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe, e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus (...) caminhará à sua frente, com o espírito e o poder de Elias...”. Atinge-se então a Jesus, que “será grande, será chamado Filho do Altíssimo”, a quem “o Senhor Deus dará o trono de Davi, seu Pai e reinará na Casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim”. A Aliança Perpétua, anunciada em Isaac “para ser o seu Deus e o de sua descendência”, será objeto da ação de João Batista, que “converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus”, corporificando-se em Jesus, defini-tivamente “cumprida”, que “reinará na Casa de Jacó para sempre (‘Aliança Perpétua’) e o seu reinado não terá fim”. E a “bênção” de Abraão tornar-se-á “Graça” em Maria. É mais que claro o “crescendo”. 

O trecho é por demais rico e traz em seu bojo registros de episódios imorredoiros de todo o passado, fatos que agora são mesclados numa verdadeira simbiose bíblica, e não mais subsistindo um sem o outro, e todos se “cumprindo” em Cristo. Tal é o que se deduz de que João Batista “não beberá vinho, nem bebida embriagante ... ficará pleno do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe ... com espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filho e os rebeldes à prudência dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto”. Quanta coisa está aí dita e que riqueza de disposição, o que somente o Espírito Santo poderia revelar, e inspirar a reprodução por Lucas! Quando diz “não beberá vinho, nem bebida embriagante” (Lc 1,15) relembra o Voto do Nazireato, (um Voto de Consagração a Deus - Nm 6,2-3), a que também se submetera ANA, para receber de Deus o seu filho Samuel (1Sm 1,11), bem como a mãe de Sansão (Jz 13,3-5), estéreis que também eram: João Batista é um consagrado, um Santo. E, quando diz que “ficará pleno do Espírito Santo ainda no seio de sua mãe”, diz que, além de Sacerdote (da Casa de Aarão), também será um Profeta (cfr. Nm 11,17.25; 24,2; 1Sm 10,6.10-12; Is 11,2; 48,16; 61,1 etc.), o “com o espirito e o poder “ do Profeta Elias, tal como anunciado e esperado (Ml 3,23-24 / Eclo 48,10-11). E ao “preparar ao Senhor um povo bem disposto” estará agindo como Samuel, unificando o Povo de Deus, aquele prometido a Abraão (“farei de ti um grande povo”), atingindo em Cristo o “cumprimento” definitivo da Aliança Perpétua iniciada com Isaac, bem como o Messianismo de Davi, já que “o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará na Casa de Jacó para sempre (‘Aliança Perpétua’), e o seu reinado não terá fim (‘Aliança Perpétua’)”. E, num só lance o Anjo anuncia e menciona a Maria a “Casa de Jacó”, o que lembra a Aliança com Abraão e o “Trono de Davi”, que, por sua vez, coloca em cena o Messianismo. 

Observando-se as três Anunciações, que podem muito bem se denominar de “Anunciação a Abraão”, ou “Anunciação a Zacarias” ou “Anunciação a Maria”, bem como, parafraseando, “Aliança com Abraão” e “Aliança com Maria”, verifica-se que além do “crescendo” existem outros detalhes bem significativos. Para uma melhor constatação se transcreve: 

A Abraão:
A Zacarias:
A Maria:
  “..., tua mulher Sara te dará um filho: tu o chamarás Isaac...”  “... e Isabel tua mulher, vai te dar um filho, ao qual porás o nome de João.”  “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e o chama-rás com o nome de Jesus.” 

A progressão evidencia elementos  os mais variados, a partir da semelhança da construção da sentença. 

Com Abraão e Zacarias repete-se que “... tua mulher vai te dar um filho...”  no qual o próprio Homem  “... poria o nome de ... (Isaac / João)”; mas, se torna um só ato e se formaliza, com Maria, tanto o “... conceberás e darás à luz um filho...” como o “... o chamarás com o nome de Jesus”. “Cumpre-se” assim a Promessa feita a Abraão, e ratifica-se então aquele ato da mulher dar o nome ao filho tal como fez Eva, ao inaugurar a luta contra a Serpente, nomeando a Set (Gn 4,25), praticando assim um ato privativo do homem. Ratifica-se já a vitória da “mulher e sua descendência” (Gn 3,15) na luta contra a “serpente”, cumprindo-se a “maldição”. Há um “crescendo” também na atuação peculiar da mulher que, com Abraão e Zacarias, “dá-lhes um filho”, apesar de estéreis, por exclusiva atuação de Deus, mantendo-as participantes na luta ensejada, enquanto com Maria, nEla é o Filho gerado pelo próprio Deus, com o que já se manifesta a derrota da serpente, anunciada no Protoevangelho. 

Com a Anunciação a Maria tudo “explode” definitiva, irreversível e convergentemente para a realização integral de toda aquela Promessa a Abraão, abrangendo todos os episódios porque passou até o seu cumprimento atual. Por isso é que se usou a expressão “explode”, pois a tudo exprime com maior amplitude, já que inclui e realiza, “cumpre”, tanto a Aliança com Abraão, ao se referir a “Casa de Jacó”, como a Promessa Messiânica feita a Davi (2Sm 7), ao mencionar “o trono de Davi, seu pai”, ratificando até mesmo a Bênção Profética de Jacó: “O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão de chefe de entre os seus pés, até que o tributo lhe seja trazido e que lhe obedeçam os povos” (Gn 49,10). A Aliança Eterna (“... minha Aliança com ele, como ‘Aliança Perpétua’...”) comprometida com Isaac se corporifica “eternamente” com Jesus (“... reinará na Casa de Jacó ‘para sempre’, e o ‘seu reinado não terá fim’”). 

Mais ainda se pode concluir pelo que sentiu Zacarias, quando “apareceu-lhe o Anjo do Senhor, ...” , pois “ao vê-lo, Zacarias perturbou-se e o temor apoderou-se dele” (Lc 1,11-12), antes mesmo que lhe fosse feita qualquer manifestação. Claro está que foi imediatamente reconhecido por Zacarias, ali no Santo, onde somente o sacerdote do cerimonial permanecia, e ainda “de pé, à direita do Altar do Incenso”, a posição biblicamente gloriosa e sagrada (cfr. Lc 22,69 e par.; At 7,55-56). Essa presença assim não era “à toa”! Surgindo no decurso daquele cerimonial deveria relacionar-se diretamente com o seu teor e objetivos, cheio de rogos messiânicos e da Salvação de Israel. O temor de Zacarias se manifesta e é bem diferente do de Abraão, não se referindo a acontecimentos conflitantes e anteriores de que participara e das suas conseqüências, nem ao futuro ainda não mencionado, mas, previsivelmente, a algum compromisso sagrado e solene a que seria envolvido: por isso, temeu! O Anjo tenta confortá-lo, acenando-lhe com o nascimento de um filho seu, que será o mensageiro anunciado pelo Profeta Malaquias: 

“Eis que vou enviar o meu mensageiro para que prepare um cami-nho diante de mim. (...) Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia de Iahweh, grande e terrível. Ele fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não ve-nha ferir o país com anátema” (Ml 3,1.23-24). 

Assim, João, o seu Filho, estaria vinculado inexoravelmente ao “Dia de Iahweh, Grande e Terrível” como o “mensageiro do Senhor”, “com o Espírito e o Poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos...”. Fora-lhe dado na velhice e de mulher estéril, para se caracterizar bem a continuidade da Obra de Salvação, de iniciativa exclusiva de Deus, usando o mesmo método de tornar Ele mesmo férteis as mulheres dela participantes, tal como as dos Patriarcas, Sara, Rebeca, Lia, Raquel, e outras. Zacarias acaba por duvidar 

Também, tal como fez Abraão, há um pedido de “esclarecimento”. Porém, enquanto Abraão quis conhecer evidências que anunciassem a sua posse definitiva, preparando-se para o acontecimento, Zacarias opõe ao fato um sério obstáculo, quis uma “prova”, pois “sou velho e minha esposa de idade avançada”, demonstrando, então, uma profunda dúvida. Por sua vez,  Maria avisa que há um obstáculo intransponível, pois “eu não conheço homem” e a geração de um filho é impossível, e sem duvidar, pois ela é “a feliz que creu” (Lc 1,45). E, da mesma maneira que para Abraão, o Anjo evidencia e mostra para Maria a onipotência de Deus, facultando a gravidez de Isabel, pois “para Deus nada é impossível”. Em Maria, o “crescendo” por que passa a Anunciação de Isaac a Abraão, atinge sua realização plena com a Encarnação do Verbo, Jesus Cristo, o Filho de Deus “Humanado”, como gostam de dizer os orientais. A Promessa feita a Abraão estava se cumprindo em Maria e Ela o percebe num relance, tal como canta no Magnificat (Lc 1,54-55). Cumprir-se-ia assim a maldição à serpente (Gn 3,15), concretizando-se em ato definitivo e irreversível. 

Da mesma forma que o narrador situa os fatos que antecederam o “não temas, Abrão” com a expressão “depois destes acontecimentos” (Gn 15,1), o Evangelista situa o que antecede ao Anúncio a Maria dizendo “no sexto mês...” (Lc 1,26), vinculando João Batista a Jesus, unindo inseparável e abruptamente o suceder dos fatos ao Anúncio a Zacarias e à gravidez de Isabel. O “crescendo” atinge então um ponto culminante: enquanto Abraão, que no futuro “será uma bênção” (Gn 12,2), “creu em Iahweh e isso lhe foi levado na conta de justiça” (Gn 15,6), o Anjo Gabriel  já encontra Maria “cheia de Graça” (Lc 1,28). Isto é, Abraão foi justificado por ter crido, e Maria já estava justificada antes da chegada do Anjo. E Isabel, “cheia do Espírito Santo” (Lc 1,41), a diz “feliz a que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lc 1,45), ao contrário de Zacarias, que “ficarás mudo e sem poder falar até o dia em que isso acontecer, porquanto não creste em minhas palavras, que se cumprirão...” (Lc 1,20). Maior que Abraão, Maria não se torna “cheia de Graça” por ter crido, mas creu por ser “cheia de Graça”. Maior que João Batista que “ficará cheio de Graça ainda no seio de sua mãe... “(Lc 1,15), Maria já estava “Cheia de Graça” quando o Anjo lhe aparece. O Batista não fora concebido sem pecado, diferentemente de Maria que o fora, insinuando-se aqui a sua Imaculada Conceição, aliando-se à saudação que o Espírito Santo Lhe dirige, pela boca de Isabel:  

“...repleta do Espírito Santo... com um grande grito exclamou: ’Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre! Donde me  vem que a MÃE DO MEU SENHOR me visite?” (Lc 1, 41-43) 

Maria é muito mais que João! Ela é bendita como seu Filho é bendito!  E quem nos diz isso é o próprio Espírito Santo, pela boca de Isabel, como acima transcrevemos e grifamos. Ela não temeu “ao ver o Anjo”, como Zacarias, nem “após acontecimentos” dramáticos anteriores, como Abraão, mas após “ouvir a saudação do Anjo”, qual seja: 
“Ela ficou intrigada com esta palavra e pôs-se a pensar qual seria o signifi-cado da saudação” (Lc 1,29). 

Maria via  sempre os fatos sob a luz significativa da fé (Lc 1,46-55; 2,19.51), e a saudação trazia à sua memória várias frases semelhantes advindas de algumas profecias messiânicas, agora traduzindo o “cumprimento” delas: 

ALEGRA-TE (= ‘AVE’), FILHA DE SIÃO, solta gritos de alegria, Israel! ALEGRA-TE e exulta de todo coração, Filha de Jerusalém! Iahweh revogou a tua sentença, eliminou o teu inimigo (...)... NÃO TEMAS, Sião! (...) Iahweh, o teu Deus ESTÁ NO MEIO DE TI,...(Sf 3,14-17).  

NÃO TEMAS, TERRA... (...) Filhos de Sião, exultai, ALEGRAI-VOS em Iahweh, vosso Deus” (...) E sabereis que estou no meio de Israel,...” (Jl 2,21-27).  
ALEGRAI-VOS muito, FILHA DE SIÃO! Grita de alegria, Filha de Jerusa-lém! Eis que o teu rei vem a ti...” (Zc 9,9-10). 

A saudação do Anjo evocou Profecias Messiânicas, tais como as acima transcritas, familiares a Maria, dirigidos à Filha de Sião [“não temas”, “alegra-te”, “o Senhor está no meio de ti (contigo)”, “...o teu rei vem a ti....”], cuja identificação a si mesma, pela interpolação feita com palavras delas, fê-la “intrigada... e pôs-se a pensar qual seria o significado da saudação”. Percebendo-se “eleita” para alguma missão, e, em face da responsabilidade daí advinda, humildemente temeu. E, na expectativa do que lhe adviria com a “missão”, como toda a pessoa que é objeto de “eleição”, humildemente não se viu “digna ou capaz”, pelo que o Anjo lhe diz: “Não temas, Maria! Encontraste Graça diante de Deus”. A Graça é um dom de Deus; e, o Anjo encontrando-A então “agraciada”, é porque Deus assim a preservou (ninguém se agracia a si mesmo). É como se lhe dissesse: “(Deus tornou-te ‘capaz’,...)”. 
encontraste Graça diante do Senhor". 

Mesmo que possam existir outras variantes, que completem o sentido reticente da narrativa, não haverá diferença tão séria que chegue a comprometer os fundamentos e as conclusões a que se chegou. Principalmente no que se refere à dimensão de Maria, que ultrapassa em muito a dos outros personagens. Ela é como que um difusor de águas a quem converge toda a Aliança com Abraão, difundindo-a então com o Seu Filho na Co-Redenção. Já foi dito que “Maria é uma Criação dentro da Criação”, e Seu Filho vai instituir Nova Aliança: 

“Este cálice é a NOVA ALIANÇA em meu sangue...” (1Cor 11,25). 

[Início desta página]   [Início deste artigo]   [Página Seguinte]



MARIA E OUTRAS “FIGURAS” 

1. - Assim, se observa que Lucas, na trilha de Maria, não se limitou a registrar apenas o que se referia diretamente as Anunciações, buscando traduzir nEla a realização dos “anúncios e figuras” do passado. Vai mais longe. Então, ao traçar a origem genealógica de todos personagens que menciona no Prólogo, não se refere a qual tribo pertence Maria. Por exemplo, diz que Zacarias era sacerdote e pertencia à “classe de Abia”, com isso dizendo que era, tal como sua mulher, Isabel, “descendente de Aarão” (Lc 1,5). Referindo-se a José, o esposo de Maria, diz que era “da casa de Davi”, mas nada a esse respeito diz de Maria, ficando Ela assim “sem genealogia”. Tudo concorre para se perceber que a identifica a outro personagem, o Sacerdote Melquisedek: 

“Sem pai, sem mãe, sem genealogia, nem princípio de dias nem fim de vida!”. É assim que se assemelha ao Filho de Deus, e permanece sacerdote para sempre” (Hb 7,3). 

E, tal como Melquisedek, “que abençoou Abraão” (Gn 14,17-20), “se assemelha ao Filho de Deus”, também, Maria “se assemelha ao Filho de Deus” e “abençoa” João Batista “ainda no seio de sua mãe” (Lc 1,15): 

“Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre, e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem que a Mãe do meu Senhor me visite? Pois quando a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu ven-tre...(Lc 1,40-45) 

1.1. - Este trecho mostra, também, com muita clareza que Maria foi a portadora do Espírito Santo, de tão fecundas manifestações, já que, pelo simples “ouvir da saudação dEla”:  Não é possível que Isabel ficasse sabendo de tudo, até mesmo da “alegria” de João, ainda no íntimo de seu ventre, sem uma moção especial do Espírito Santo, que se manifesta tão logo “Isabel ouviu a saudação de Maria”. Jesus ensinará que “a árvore boa dá bons frutos” (Mt 7,16-20; 12,33; Lc 6,43-44). Ora, Jesus é Filho de Maria, “o bom fruto da boa árvore”! Por isso Isabel a reconhece:  

BENDITA ÉS TU ENTRE AS MULHERES, E BENDITO É O FRUTO  DE TEU VENTRE(Lc 1,42). 

Pode-se ver em todos esses fatos um “milagre de Maria” (cfr. Mt, 12,28), e o “cumprimento” da sua primeira “missão”. Maria, por sua vez, viu em João Batista não somente o “mensageiro” da Profecia de Malaquias, mas a realização da “figura” que lhe serviu de anúncio, SAMUEL, o Sacerdote e Profeta que unificou as Tribos de Israel, preparando-as para a Monarquia, que culminou em Davi, a quem foi anunciado o Messianismo (2Sm 7). Por isso, homenageando Isabel, compõe o MAGNIFICAT, parafraseando o Cântico de Ana (1Sm 2,1-10), cotejando ambas as mães, cujos filhos eram ambos nazireus (Nm 6,1-8 / 1Sm 1,11 / Lc 1,15), e evidenciando o principal motivo de sua visita a Isabel. A ajuda que Maria lhe leva é muito mais do que um auxílio material, eis que, conhecendo a missão que cabia a João Batista, estando Zacarias mudo, somente Ela poderia anunciar-lhe a “Boa-Nova” (=Evangelho), e prepará-la para o múnus de educá-lo, para ser o “precursor do Messias”. Não só, mas também, para “preparar ao Senhor um Povo bem disposto” (Lc 1,17), da mesma forma que Samuel unificara o Povo de Israel, preparando-o para o Reino de Deus que se corporificava. Maria foi a Primeira Evangelizadora e Missionária do novo Reino que se inaugurava. 

Pode-se pretender que se trate de coincidências e é até razoável pensar-se assim, mas quando a “pretendida-concidência” traz consigo algum significado concreto, deixa de ser um acaso para se tornar um fato significativo. Muitos mais desses fatos significativos podem ser localizados nesses trechos que se examinam comparativamente e nunca se esvaziará o tema. 

2. - Algumas narrativas da Escritura obedecem uma sistemática bem singular, um recurso literário da época, que consiste em repetir no final de um relato a mesma frase que o iniciou, indicando-se assim o começo e o término de um “discurso, acontecimento ou fato”, funcionando como o título e a conclusão [cfr. Mt 1,1 (“Livro da origem de Jesus Cristo...”) e 1,17 (“A origem de Jesus Cristo foi assim...”); 3,2 (“Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”) e 4,17 (“Convertei-vos, por-que o Reino dos Céus está próximo”); 5,6 (“Bem aventurados [...] porque deles é o Reino dos Céus”) e 5,10 (“Bem aventurados [..] porque deles é o Reino dos Céus”) etc.]. Lucas usa artifício idêntico ao unificar as três Anunciações numa só abordagem em torno da “aparição do Anjo e sua retirada”. Por isso é que faz constar somente no final do Anúncio a Maria que “... o Anjo retirou-se”, nada dizendo a respeito ao término do Anúncio a Zacarias, apesar de ter acontecido seis meses antes, ecoando com o narrado no final do Anúncio a Abraão, em Gn 17,22, de que “Deus retirou-se de junto de Abraão”. Suprimindo da narrativa a retirada do Anjo de junto de Zacarias, Lucas pretendeu unir as duas Anunciações, a de João e a de Jesus, como se fossem uma só, e um fato só, em “figura” antes, na de Isaac, e, sendo então com essas, “cumprido”, manifestando-se assim o “crescendo” havido. 

2.1. - É de se considerar que muita frase escrita nos escapa, em virtude da cultura do tempo não exigir maiores indagações dos contemporâneos. Assim acontece com a frase que Lucas usa ao dizer: 

“...e Ela deu à luz o seu Filho Primogênito...” (Lc 2,7). 

É que a Primogenitura é uma instituição israelita cujo significado religioso nos foge, mas vi-gorava ainda nos primeiros tempos do cristianismo. São vários os locais em que, principalmente São Paulo, usa o termo em seu sentido técnico e tradicional: 

“Ele é a Imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura, porque nele foram criadas todas as coisas,... (...)Ele é a Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo. Ele é o princípio, o Primogênito dos mortos (tendo em tudo a primazia), pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a Plenitude...” (Col 1,15-19) 

Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conforme a imagem do seu Filho, a fim de ser ele o Primogênito entre muitos irmãos (Rm 8,29).. 

Estes trechos podem ser colocados em paralelo, pela fecundidade que inspirava a primogenitura, com a “Bênção de Jacó”, segundo a qual: 

“Rúben, tu és meu primogênito, meu vigor, as primícias de minha virilidade, cúmulo de altivez e de força, impetuoso como as águas: não serás colmado, ...” (Gn 49,3-4). 
Gn 49, 3-4
Col 1, 15-19
Rm 8, 29
“... meu primogênito, meu vi-gor,  “... o Primogênito de toda cria-tura (...) o Primogênito dos mortos  “... Primogênito entre muitos irmãos 
as primícias de minha virilida-de,  ... o princípio...a imagem do Deus invisível...nele foram cri-adas todas as coisas (...) é a Cabeça da Igreja,  ...os que de antemão ele co-nheceu 
cúmulo de altivez e de força, impetuoso como as águas:   (...) nele aprouve ...habitar toda a plenitude    
predestinou 
não serás colmado (=“elevado”)  Ele é a Cabeça da Igreja (...) tendo em tudo a primazia  a serem conforme a imagem do seu Filho 

A construção das frases mostra estreita identidade de manifestações do significado da primogênitos, que também tinham o conceito de “aqueles que abrem o seio materno” (Ex 13,2; Nm 8,16), cuja denominação comprova o conceito de que “anunciam farta colheita”, tal como é o significado de primícias. Esse conceito difere do nosso, eis que a palavra primogênito para nós significa “o primeiro filho”, não apenas assim entre os antigos. A ele caberia a substituição do pai, a chefia do clã e o exer-cício do sacerdócio (Ex 13,2 e Nm 8,16), pelo que recebia dupla porção da herança (Dt 21,17). Tam-bém, com o seu nascimento, “abre o seio materno” propiciando o nascimento de outros filhos. Jesus, “o primogênito dentre os mortos”, é então “aquele que abre o seio da vida eterna”, propiciando o in-gresso nela de outros irmãos, “predestinados a serem conforme sua imagem”, para que Ele seja “o Primogênito entre muitos irmãos”. 

Nessas condições, não se pode delimitar o significado da expressão em Lc 2,7 apenas quanto ao fato de se referir às oferendas, devidas pelo nascimento do filho e ao resgate de sua consagração. Todo o significado que a cultura da época lhe dava está aí presente. O que São Lucas transcreve com essa afirmativa é a concepção cultural daquele tempo, em virtude da qual, já pressentiam os primeiros cristãos, de que pelo Batismo nos tornamos, como Jesus o é realmente, FILHOS DE MARIA E DO ESPÍRITO SANTO, fechando o quadro narrativo que se iniciou quando Deus disse a Abraão que “... serás PAI DE UMA MULTIDÃO DE NAÇÕES” (Gn 17,4), já antecipando a convicção de que MARIA É A MÃE DE UMA MULTIDÃO DE POVOS, “A MÃE DA IGREJA’! Assim, para os primeiros cristãos, Abraão é “figura” de Maria, e nEla se cumprem a Promessa e a Aliança. Jesus é “o primogênito de Maria”, não de José, não se podendo deduzir nenhum relacionamento daí. 


[Início desta página]   [Início deste artigo]   [Página Seguinte]
MUNDO CATÓLICO - Copyright © 1997